Administração e Comunicação
(Mestrado e Doutorado)
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Novo filme de Steven Spielberg, que estréia nesta semana no Brasil,
põe em discussão o atual estágio da inteligência
artificial
MENTES QUE BRILHAM
Divulgação
Cena do filme "AI - Inteligência Artificial"
ADRIANO SCHWARTZ
enviado especial a Massachusetts
Um robô que possui expressões faciais e demonstra alegria, tristeza,
irritação; um ambiente inteligente, no qual você fala
ou, eventualmente, desenha nas paredes para que as coisas aconteçam;
um dinossauro que anda. Esses são alguns dos projetos desenvolvidos
no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT (Instituto
de Tecnologia de Massachusetts, EUA), provavelmente o local do planeta que
concentra as pesquisas mais avançadas sobre o assunto.
Por isso, o AI Lab, visitado pelo Mais! em julho, é o lugar ideal
para avaliar a relação entre o atual estágio da área
e a "realidade" fictícia de "AI - Inteligência Artificial",
o novo filme de Steven Spielberg, que estréia no Brasil nesta semana.
"AI" é um filme estranho, no qual se mesclam nem sempre de modo tranquilo
o cerebralismo de Stanley Kubrick e a forte carga emocional de todas as obras
de Spielberg. Apesar de o resultado dessa simbiose acarretar problemas, é
difícil não admitir que a "contaminação" do diretor
de "Tubarão" pelo projeto de Kubrick, morto em 1999, o tenha levado
a fazer sua melhor obra em muitos anos.
O filme é dividido em três partes bem definidas. Na primeira,
é introduzido o novo projeto do professor Hobby (William Hurt), um
robô que consegue desenvolver sentimentos, e é apresentado o
casal escolhido para abrigar o menino, Monica e Henry Swinton (Frances O'Connor
e Sam Robards). O protótipo, David (Haley Joel Osment), vai morar
com eles e tudo corre bem até que o filho verdadeiro do casal se recupera
surpreendentemente de uma doença que o deixara em coma por anos e
volta para casa. David é, então (segunda parte), abandonado
pela mãe e começa, com o auxílio do robô-gigolô
Joe (Jude Law) e do superbrinquedo Teddy (um fabuloso urso de pelúcia),
a sua saga para reencontrá-la. Para não antecipar o final da
história, pode-se dizer apenas que a terceira parte trata, em um futuro
distante, da conclusão dessa busca.
Como em boa parte do que se produziu em ficção científica
sobre robôs nas últimas décadas (do conto "O Homem Bicentenário",
de Isaac Asimov, ao Data, da série "Jornada nas Estrelas -A Nova Geração"),
em "AI" a existência de seres mecânicos que cumprem diversas
funções entre os homens já é cotidiana. No horizonte
ficcional, a meta máxima é a transformação desses
seres em entes conscientes com sentimentos.
UBÍQUO COMO O AR
Dos projetos mencionados, por exemplo, aquele que mais brevemente deve render
benefícios concretos é o da sala inteligente, na verdade apenas
uma parte do Projeto Oxigênio e de outros trabalhos semelhantes no
MIT. Eles têm como lema "permitir que as pessoas façam mais
fazendo menos" e como objetivo "trazer a todos computação e
comunicação de forma tão abundante e tão ubíqua
quanto o ar".
Tais trabalhos buscam corrigir, segundo o professor do MIT Randall Davis,
ex-presidente da Associação Americana para Inteligência
Artificial, um "acidente histórico" que torna os computadores muito
difíceis de usar. Esse acidente aconteceu nos anos 40, quando computadores
começaram a ser desenvolvidos. "Alguém teve a brilhante idéia
de ligar uma máquina de escrever a um computador. Desde então,
temos datilografado. Isso é bobo. Não datilografamos para falar
uns com os outros, por que temos que datilografar para nos comunicar com
um computador? Em 50 anos, o que fizemos? Houve o "gigantesco" salto para
o mouse. Agora temos o teclado e o mouse."
De acordo com ele, o ser humano tem, por muito tempo, organizado a vida ao
redor de computadores, porque eram aparelhos grandes, caros e raros. Tal
situação não se alterou, apesar de eles não serem
mais grandes, caros e raros. "Então por que não ficamos nós
confortáveis, ao invés de fazê-los confortáveis?",
pergunta Davis.
Um exemplo de mecanismo usado no Projeto Oxigênio é o E21, que
engloba uma série de aparelhos (microfones, câmeras) inseridos
no ambiente e com os quais a pessoa interage naturalmente, sem nenhum foco
de atenção específico. O E21 pode redirecionar uma ligação
telefônica "conversando" com o interlocutor, marcar compromissos, fazer
reservas ou mesmo avisar alguém da hipotética queda de um parente
em seu apartamento.
ROBÔS QUE RIEM, CHORAM, ANDAM
Outra linha de projetos no MIT lida com robôs humanóides. O
mais famoso deles é Cog, projeto de Rodney Brooks, o diretor do AI
Lab, que tem como principal objetivo ser o mais próximo possível
de um ser humano, simulando movimentos e sentidos. Já o robô
Kismet busca criar uma interação expressiva com o interlocutor,
como se fosse um bebê de alguns meses reagindo aos estímulos
visuais e sonoros à sua frente. As respostas, que incluem movimentação
corporal e facial, além de emissões sonoras, indicam emoções
básicas, como alegria, tristeza, irritação, interesse
etc.
Uma das atuais estrelas do laboratório, o dinossauro Troody, por sua
vez, não tem, na verdade, nada de inteligência artificial, como
salienta o engenheiro Peter Dilworth, o seu criador. Recém-completado
-acaba de ser adquirido pelo Museu da Ciência de Boston-, teve como
principal propósito ser um robô eficiente com duas pernas (há
menos de dez robôs bípedes no mundo) e locomoção
autônoma.
Por que um dinossauro? Segundo Dilworth, por duas razões: "Sempre
gostei de dinossauros e achei que seria uma boa oportunidade para que as
pessoas pudessem ter uma idéia do que seria um criatura assim andando
por aí; o outro motivo é comercial, há atualmente muito
interesse em dinossauros, exibições por todo o planeta, e o
robô só precisa andar...".
Como se percebe, se na ficção robôs humanóides
são corriqueiros, na realidade o caminho para produzir um robô
dos mais simples parece árduo e longo, ainda mais dotado de consciência
como no filme "AI" -quão longo seja esse percurso é um motivo
de grande controvérsia entre os especialistas.
A CHEGADA DOS ROBÔS
Rodney Brooks
"O personagem David e o filme estão localizados em um futuro indeterminado.
Nós fazemos muitas coisas no AI Lab, entre elas construir robôs
humanóides que têm emoções e podem interagir com
as pessoas, estabelecendo contato visual, sorrindo, mexendo a cabeça,
tendo certo controle da conversa.
Nesse sentido, estamos construindo alguns protótipos preliminares
de David aqui. Quanto tempos vamos levar para chegar ao nível dele
é uma outra questão. Eu ficaria muito surpreso se nós
não chegássemos lá em nenhum momento.
Em 20 ou 30 anos, teremos suficiente capacidade tecnológica para construir
um robô com a mesma quantidade de computação do cérebro
humano. Só não sei se nós vamos conseguir decifrar os
algoritmos necessários nesse período de tempo. Isso pode levar
20, 30, até 200 anos. Não sei.
A inteligência artificial tem sido temida por muito tempo, mas temos
tecnologia relacionada a ela em muitos campos da nossa vida hoje em dia sem
percebermos. Atualmente, ela tem cumprido pequenas tarefas: o sistema que
define para qual portão vai um avião no aeroporto Heathrow,
o oponente de alguém jogando videogame, o sistema que examina as suas
compras com cartão de crédito e manda um alerta quando parece
que os seus hábitos mudaram drasticamente, esses são usos da
inteligência artificial.
A maior parte dos robôs que iremos eventualmente construir não
terá vontade própria. Nós poderemos, no entanto, construir
robôs com esse alto nível de interatividade, e não vejo
por que acidentalmente faríamos algum robô maligno. Iremos passo
a passo avaliando o que fizemos e, quando for necessário, haverá
regulamentações governamentais."
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Trechos do depoimento de Rodney Brooks, diretor do Laboratório de
Inteligência Artificial do MIT, para a produção do filme
"AI".
A DÚVIDA DA CONSCIÊNCIA
Marvin Minsky, um dos fundadores do AI Lab, do MIT, afirmou recentemente
em uma entrevista ao "ZDNet" que "a consciência não existe".
Ela significa apenas, segundo ele, se lembrar do que você fez recentemente,
o que tornaria tola a discussão sobre a eventual consciência
de computadores. Minsky deve publicar até 2002 "The Emotion Machine"
(A Máquina de Emoções), uma espécie de continuação
de seu influente "A Sociedade da Mente".
Para o filósofo Daniel Dennett, da Universidade Tufts (Massachusetts),
os impedimentos para a construção de um robô consciente
são principalmente financeiros.
"Eu duvido que um robô consciente seja construído neste século,
mas apenas por entediantes razões econômicas. Fazer um robô
realmente consciente é possível, mas terrivelmente caro, e
o projeto não é claramente motivado por nenhum objetivo científico
ou técnico. Suponho que continuaremos a fazer sistemas que têm
muitos dos atributos da consciência e, por meio disso, aprenderemos
o que precisamos saber", diz Dennett, que também atua no projeto Cog.
Já para o professor do MIT Randall Davis, a possibilidade de reproduzir
os atributos da mente humana artificialmente ainda é muito remota:
"O cérebro é muito complicado e, exceto por alguns pontos muito
especializados, nós ainda não entendemos direito como ele funciona.
Há poucas áreas em que talvez vejamos progressos no nosso período
de vida, nos próximos 40 ou 50 anos, ouvidos artificiais... os sensores,
de modo geral".
Há, contudo, quem acredite que o feito está por acontecer,
como o premiado inventor Raymond Kurzweil, autor de vários textos
na área, entre eles "The Singularity Is Near" (A Singularidade Está
Próxima), que deve ser lançado no ano que vem. Para ele, as
máquinas afirmarão serem conscientes em 30 anos, mas o cenário
é ainda mais complexo.
De acordo com Kurzweil, o avanço tecnológico da humanidade
está, atualmente, dobrando a cada dez anos. Isso significa que o progresso
científico no século 21 seria, numa visão linear, equivalente
ao de dezenas de séculos prévios. Entretanto, afirma o autor,
a taxa de crescimento é exponencial, o que implica que ele "parecerá
explodir em direção ao infinito" na primeira metade do século
21 (em contraste, "o século 20 teve apenas 25 anos de crescimento
segundo a atual taxa de progresso").
Ocorre que, para Kurzweil, o ser humano será, em algum momento das
próximas décadas, incapaz de acompanhar tal evolução
-pelo menos o que chama de "o ser humano não aprimorado" pela incorporação
da inteligência artificial. Isso porque, ele pergunta, "o que mil cientistas,
cada um mil vezes mais inteligente do que os atuais e cada um trabalhando
mil vezes mais rápido do que os humanos de hoje em dia (porque o processamento
de informação nos cérebros primordialmente não-biológicos
deles é mais rápido) seriam capazes de fazer?".
No campo oposto, entre os grandes adversários da idéia de inteligência
artificial, encontram-se há muitos anos o matemático Roger
Penrose e o filósofo John Searle.
O primeiro, companheiro de pesquisa do físico Stephen Hawking, é
autor de um livro que se tornou referência obrigatória na área,
"A Roupa Nova do Rei", no qual busca destruir qualquer tentativa de comparar
o funcionamento do cérebro humano com o de um computador.
Searle, por sua vez, criou um dos mais citados e combatidos argumentos filosóficos
das últimas décadas -o quarto chinês- para atacar a disciplina.
Em linhas gerais, ele consiste em supor que uma pessoa -que não entenda
chinês- esteja fechada em um quarto com duas aberturas. Através
da primeira, alguém passa a ela uma frase em chinês. Usando
um livro de regras, a pessoa cria uma "resposta" possível à
tal frase e a insere na outra abertura. Hipoteticamente, a frase poderia
até ser "você fala chinês", e a resposta, após
a consulta ao livro de regras, "sim".
A comparação com um computador, segundo Searle, é evidente.
Ele recebe uma informação, a processa e a devolve, sem em nenhum
momento "entender" nada do que está acontecendo. Mudar o programa,
aprimorá-lo, significaria apenas alterar o livro de regras: o entendimento
continuaria absolutamente nulo, e a inteligência artificial, impossível.
Falta, na concepção do filósofo, um elemento essencial
à consciência, a intencionalidade intrínseca.
As respostas aos ataques de Penrose e Searle vieram de todos os lados e com
as mais variadas intensidades. Steven Pinker, diretor do Centro de Neurociência
Cognitiva do MIT, por exemplo, escreveu que os argumentos de ambos "têm
mais uma coisa em comum além do alvo. Ao contrário da teoria
que criticam, eles são tão desvinculados da descoberta e explicação
na prática científica que têm sido empiricamente estéreis,
sem contribuir com nenhum insight e inspirar descobertas sobre o modo como
a mente funciona".
A ORIGEM DAS ESPÉCIES ARTIFICIAIS
A implicação mais fascinante do desenvolvimento das tecnologias
de inteligência artificial nos próximos anos é a hipótese,
defendida por alguns autores, de que ela vá alterar profundamente
a própria idéia de evolução da humanidade.
Para Kurzweil, haverá um aumento na capacidade de inteligência,
pois o cérebro humano não terá mais um limite preestabelecido
pela natureza: "Quando os cientistas se desenvolverem para ser um milhão
de vezes mais inteligentes, então 60 minutos resultarão em
um século de progresso (nos termos atuais)". Isso é, para ele,
a Singularidade, "mudança tecnológica tão rápida
e profunda que representará uma ruptura na fábrica da história
humana".
Daniel Dennett não vê as perspectivas das experiências
de implantes cerebrais com muito otimismo. Para ele, "é possível
incorporar aparelhos digitais no cérebro, mas isso tende a ficar muito
caro, a não ser aparelhos que meu cérebro já "incorpora".
Neste momento, meu cérebro está em direta interação
com um computador -um aparelho digital. Esses caminhos podem ser melhorados
e encurtados, mas não está claro se instalar algo no meu cérebro
ajudaria muito".
A idéia de incorporar tecnologia ao corpo para modificá-lo
já vem sendo testada. Kevin Warwick, professor de cibernética
da Universidade de Reading, na Inglaterra, implantou em 1998 um chip em seu
braço que era capaz de monitorá-lo enquanto ele se movia pelos
corredores de seu departamento.
A segunda fase do projeto estaria em andamento neste semestre. Warwick pretende,
desta vez, implantar um novo chip e verificar como ele transmitiria dados
de seu sistema nervoso para um computador e vice-versa. No anúncio
do plano, aparecem as seguintes perguntas: "Até que ponto o cérebro
pode se adaptar e processar informações estranhas vindas através
dos nervos? Ele aceitará tais informações? Ele tentará
interrompê-las?". A resposta de Warwick a elas é simples: "Não
tenho a menor idéia".
Por via das dúvidas, já existe quem esteja se antecipando aos
fatos e se preparando para um hipotético e admirável mundo
novo a chegar, repleto de Davids e de gigolôs Joe. O advogado americano
Frank Wells Sudia acaba de publicar um artigo (www.sudialab.com) no qual
busca estabelecer uma jurisprudência para os "artilects" ("artificial
intellects"), pois, como afirma, o advento desses seres, "com conhecimento
e capacidade de raciocínio que ultrapassarão o humano, criará
novas questões legais".
Ele continua: "Novas regras e padrões devem ser necessários
para governar o uso e comportamento deles -em particular, o temor de que
venham a se transformar em uma super-raça que eclipsará a humanidade
(...) e tentará marginalizar ou eliminar pessoas".
Não deixa de ser curioso que já (ou talvez só) tenham
se passado mais de 50 anos desde que o lógico e matemático
inglês Alan Turing (1912-1954) publicou "Computing Machinery and Intelligence"
(Maquinaria de Computação e Inteligência), um artigo
fundador na teoria da inteligência artificial. Na primeira linha do
texto, surge a questão crucial, simples e ainda válida: "Proponho-me
a considerar a seguinte pergunta: "As máquinas podem pensar'?".
Dois bons lugares para quem desejar informações sobre inteligência
artificial na web são o site de Raymond Kurzweill (www.kurzweilai.net)
e o catálogo de artigos on line do filósofo David Chalmers
(www.u.arizona.edu/~chalmers/online.html)
O QUE LER
Como a Mente Funciona de Steven Pinker (Companhia das Letras)
Filosofia e Ciência Cognitiva de James H. Fetzer (Edusc)
Gödel, Escher e Bach de Douglas R. Hofstadter (editora UnB/Imprensa
Oficial)
Mente, Cérebro e Cognição de João de Fernandes
Teixeira (Vozes)
Mente, Linguagem e Sociedade de John R. Searle (Rocco)
A Mente Nova do Rei de Roger Penrose (Campus)
O Mistério da Consciência de John R. Searle (Paz e Terra)
A Nova Ciência da Mente de Howard Gardner (Edusp)
A Redescoberta da Mente de John R. Searle (Martins Fontes)
Tipos de Mentes de Daniel Dennett (Rocco)
Visões do Futuro de Michio Kaku (Rocco)
The Age of Spiritual Machines de Raymond Kurzweil (Penguin)
The Computational Brain de Churchland e Sejnowski (MIT Press)
Consciousness Explained de Daniel Dennett (Little, Brown)
Foundations of Cognitive Science de M. Posner (MIT Press)
Mind Design de John Haugeland (MIT Press)
Robo Sapiens de Peter Menzel e Faith D'Aluisio (MIT Press)
"Robot - Mere Machine to Transcendent Mind de Hans Moravec (Oxford University
Press)
The Society of the Mind de Marvin Minsky (Simon & Schuster)
--------------------------------------------------------------------------------
Onde encomendar
Livros em inglês podem ser encomendados, em SP, à livraria Cultura
(tel. 0/xx/ 11/ 285-4033) e, no Rio, à livraria Marcabru (tel. 0/
xx/21/ 294-5994).
O inventor do termo esclarece as principais dúvidas sobre o conceito
QUESTIONÁRIO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Peter Menzel/"Robo Sapiens" (MIT Press)
Marvin Minsky, um dos fundadores do Laboratório de Inteligência
Artificial do MIT
por John McCarthy
O que é inteligência artificial?
É a ciência e a engenharia aplicadas à elaboração
de máquinas inteligentes, em especial programas de computador inteligentes.
Ela é relacionada ao trabalho semelhante de utilizar computadores
para compreender a inteligência humana, mas a inteligência artificial
não precisa se restringir a métodos biologicamente observáveis.
Sim, mas o que é inteligência?
Inteligência é a parte computacional da habilidade de atingir
metas no mundo. Inteligências de graus e tipos variados ocorrem em
pessoas, em vários animais e em algumas máquinas. Será
que não existe uma definição sólida de inteligência
que não precise ser relacionada à inteligência humana?
Ainda não. O problema é que nós ainda não podemos
caracterizar de forma geral que tipos de procedimento computacional nós
queremos chamar de inteligentes. Entendemos alguns mecanismos da inteligência,
e não outros.
É a inteligência uma coisa única, de forma que alguém
possa perguntar se uma máquina é ou não é inteligente?
Não. A inteligência envolve mecanismos, e a pesquisa em inteligência
artificial descobriu como fazer os computadores desempenharem alguns deles,
não outros. Se executar um trabalho requer apenas mecanismos que são
bem compreendidos hoje, computadores podem ter desempenhos impressionantes
em tal trabalho. Tais programas devem ser considerados "algo inteligentes".
A inteligência artificial não serve para simular inteligência
humana?
Às vezes, mas não sempre, nem na maioria das vezes. Por um
lado, podemos aprender algo sobre como fazer máquinas solucionarem
problemas ao observarmos outras pessoas ou ao observarmos os nossos próprios
métodos de resolução de problemas. Por outro lado, a
maior parte do trabalho em inteligência artificial envolve o estudo
de problemas que o mundo apresenta à inteligência em vez de
estudar pessoas ou animais. Pesquisadores em inteligência artificial
são livres para usar métodos que não são seguidos
por pessoas ou que envolvam muito mais cálculos do que uma pessoa
pode fazer.
E quanto a comparações entre inteligência humana e inteligência
de computador?
Arthur R. Jensen, um pesquisador de ponta em inteligência humana, sugere
"como hipótese heurística" que todos os seres humanos normais
têm os mesmos mecanismos intelectuais e que as diferenças em
inteligência são relacionadas a "condições bioquímicas
e fisiológicas quantitativas". Eu as entendo como velocidade, memória
a curto prazo e habilidade de formar memórias a longo prazo precisas
e recuperáveis. Estando Jensen certo ou não com relação
à inteligência humana, a situação hoje em inteligência
artificial é oposta.
Programas de computador têm bastante velocidade e memória, mas
suas habilidades correspondem aos mecanismos intelectuais que os programadores
compreendem bem o suficiente para colocar nos programas. Algumas habilidades
que crianças não desenvolvem até que sejam adolescentes
podem estar nesses programas, enquanto algumas habilidades de crianças
de dois anos de idade não estão. O problema se agrava pelo
fato de as ciências cognitivas ainda não terem tido sucesso
em determinar exatamente quais são as habilidades humanas. Muito provavelmente
a organização dos mecanismos intelectuais para a inteligência
artificial pode ser vantajosamente diferente daquela em pessoas.
Sempre que pessoas desempenham alguma tarefa melhor que computadores ou computadores
fazem uso de cálculo excessivo para desempenhá-la tão
bem quanto pessoas fica demonstrado que aos programadores falta a compreensão
dos mecanismos intelectuais requeridos para desempenhá-la eficientemente.
Quando começou a pesquisa em inteligência artificial?
Após a Segunda Guerra Mundial, um número de pessoas começou
a trabalhar independentemente em máquinas inteligentes. O matemático
inglês Alan Turing pode ter sido o primeiro. Ele deu uma palestra a
respeito em 1947. Ele também pode ter sido o primeiro a decidir que
inteligência artificial seria mais bem pesquisada na programação
de computadores do que na construção de máquinas. No
final da década de 50, havia muitos pesquisadores em inteligência
artificial, e a maioria deles baseava o trabalho em programar computadores.
A inteligência artificial almeja colocar a mente humana dentro do computador?
Alguns pesquisadores dizem ter esse objetivo, mas talvez estejam usando a
frase metaforicamente. A mente humana possui diversas peculiaridades, e não
tenho certeza de que alguém pense seriamente em imitar todas elas.
O que é o teste de Turing?
O artigo de Turing de 1950, "Computing Machinery and Intelligence", discutiu
as condições para considerar uma máquina inteligente.
Ele argumentou que, se a máquina tivesse êxito em fingir ser
humana para um observador perspicaz, então certamente deveria ser
considerada inteligente. Esse teste satisfaz à maioria das pessoas,
mas não a todos os filósofos. O observador poderia interagir
com a máquina e com outro ser humano via teletipo (para evitar a necessidade
de a máquina imitar a aparência ou a voz de uma pessoa), a pessoa
tentaria persuadir o observador de que a máquina é humana,
e a máquina tentaria enganar o observador.
A inteligência artificial almeja obter inteligência do mesmo
nível que a humana?
Sim. O esforço último é fazer programas de computador
que possam solucionar problemas e atingir metas no mundo tão bem quanto
seres humanos. Entretanto muitas pessoas envolvidas em áreas particulares
de pesquisa são muito menos ambiciosas.
A que distância a inteligência artificial está de atingir
inteligência de mesmo nível que a humana? Quando isso acontecerá?
Algumas pessoas acreditam que inteligência como a humana pode ser atingida
ao ser escrito um grande número de programas do tipo que estão
sendo escritos hoje e ao montar uma vasta base de fatos do conhecimento nas
linguagens hoje utilizadas para expressar conhecimento.
Entretanto a maioria dos pesquisadores em inteligência artificial crê
na necessidade de novas idéias fundamentais, portanto não é
possível prever quando esse nível de inteligência será
atingido.
Os computadores são o tipo ideal de máquina a ser tornada inteligente?
Computadores podem ser programados de forma a simular qualquer tipo de máquina.
Muitos pesquisadores inventaram máquinas que não eram computadores,
esperando que elas fossem inteligentes em maneiras diferentes daquelas que
os programas de computador podem ser. Todavia eles normalmente simularam
suas máquinas inventadas em um computador e duvidaram de que valesse
a pena construir a nova máquina. Por terem sido gastos bilhões
de dólares em fazer os computadores cada vez mais rápidos,
outro tipo de máquina teria de ser muito rápida para ter um
desempenho melhor do que o programa de computador simulando essa máquina.
Os computadores são rápidos o suficiente para serem inteligentes?
Algumas pessoas acham que são necessários computadores muito
mais rápidos, além de novas idéias. Minha opinião
é a de que os computadores de 30 anos atrás já teriam
sido rápidos o suficiente se nós tivéssemos sabido como
programá-los. É claro que, bem à parte das ambições
dos pesquisadores em inteligência artificial, os computadores serão
cada vez mais velozes.
E quanto a máquinas paralelas?
Máquinas com muitos processadores são muito mais velozes do
que podem ser as com um único processador. Paralelismo em si não
apresenta vantagens, e máquinas paralelas são pouco práticas
para programar. Quando a velocidade extrema é necessária, essa
falta de praticidade deve ser enfrentada.
E quanto a fazer uma "máquina criança" que pudesse se desenvolver
lendo e aprendendo com a experiência?
Essa idéia foi proposta muitas vezes desde os anos 40. Eventualmente
será posta em prática. Entretanto programas de inteligência
artificial ainda não atingiram o estágio de serem capazes de
aprender muito do que uma criança aprende por experiência física.
Tampouco os programas atuais compreendem linguagem bem o suficiente para
aprender algo por meio de leitura.
Poderia um sistema de inteligência artificial obter um nível
cada vez mais alto de inteligência, retroalimentando-se sem auxílio,
apenas por pensar sobre inteligência artificial?
Penso que sim, mas ainda não estamos em um nível de inteligência
artificial em que esse processo possa começar.
E quanto ao xadrez?
Alexander Kronrod, um pesquisador em inteligência artificial russo,
disse: "Xadrez é a drosófila da inteligência artificial".
Ele fazia analogia com o uso que os geneticistas fazem dessa mosca de frutas
para estudar herança genética. Jogar xadrez requer certos mecanismos
intelectuais, e não outros. Programas de xadrez agora jogam no mesmo
nível de grandes mestres, mas o fazem com mecanismos intelectuais
limitados se comparados a um enxadrista humano, substituindo compreensão
por grande quantidade de cálculo. Uma vez que tenhamos um melhor entendimento
desses mecanismos, poderemos criar programas de xadrez de nível humano
que façam muito menos cálculos que os programas atuais.
Infelizmente os aspectos competitivos e comerciais de fazer computadores
que joguem xadrez foram priorizados, em vez do uso do xadrez como um domínio
científico. É como se os geneticistas após 1910 tivessem
organizado corridas de drosófilas e concentrado seus esforços
na criação e aprimoramento de moscas para vencer essas corridas.
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John McCarthy é professor emérito de ciência da computação
da Universidade Stanford (EUA). Cunhou o termo "inteligência artificial"
em 1956. O texto acima é uma versão reduzida do questionário.
A versão completa pode ser obtida em www-formal.stanford.edu/jmc/whatisai/whatisai.html
Tradução de Victor Aiello Tsu. Inteligência artificial segundo Spielberg
Marcelo Gleiser
especial para a Folha
Uma das questões teológicas mais conhecidas é: "Se Deus
é perfeito, por que sentiu a necessidade de criar Adão e Eva?"
A resposta, ou ao menos uma delas, é que Deus criou o homem e a mulher
para que eles pudessem amá-lo. Nesse caso, Deus revela uma vaidade
um tanto imperfeita e embaraçosa, que dá pano para várias
mangas eclesiásticas. Essa pergunta, sem o último comentário,
aparece no início do novo filme de Steven Spielberg, "Inteligência
Artificial". O ator William Hurt representa o cientista genial que desenvolve
um método para codificar emoções em redes neurais implantadas
em robôs que são externamente indistinguíveis de seres
humanos. Em outras palavras, o filme trata da possibilidade de criarmos máquinas
que, para todos os propósitos, se comportam como seres humanos e se
assemelham a eles, nossos próprios Adão e Eva.
Se, por um lado, é difícil entender a motivação
divina em criar os homens, no nosso caso a motivação é
trivial: nós somos seres vaidosos, com uma profunda necessidade de
amar e ser amados. E, ainda mais importante, nós somos mortais, e
nossa mortalidade é causa de grande sofrimento. De certa forma, a
morte é o triunfo final da Natureza sobre a criatividade humana -a
menos que, claro, a ciência possa driblar a morte.
Esse é, essencialmente, o tema do filme de Spielberg. As máquinas
que amam e sonham criadas pelo cientista são cópias idênticas
de seu filho já falecido. Se não nos é possível
perpetuar a vida, podemos ao menos imitá-la. O problema é que
o cientista se esqueceu de um detalhe fundamental: as máquinas que
amam e sonham são essencialmente imortais, condenadas a sofrer a perda
dos entes amados para sempre. Na ânsia de amenizar a dor de sua perda,
o cientista egoísta condena a sua criação a sofrer da
mesma dor. E sem o alívio que vem com a morte.
O filme nos alerta para vários perigos futuros, todos consequência
do uso cego e desenfreado da ciência. Grande parte do mundo, em particular
as regiões costeiras, jaz submersa pelo aumento do nível do
mar provocado pelo efeito estufa; a recriação de Nova York
parcialmente sob as águas é tecnicamente espetacular. A narrativa
do filme é estruturada como um conto de fadas, traçando as
aventuras de um robô-criança capaz de amar e sonhar, cujo maior
desejo é, como Pinóquio, tornar-se um menino de verdade.
Conforme fica claro no filme, se os humanos são capazes de criar máquinas
que sentem e amam, não é óbvio que eles serão
também capazes de amá-las. As máquinas não são
vistas como animais de estimação, mas como uma ameaça
à hegemonia dos humanos na Terra: afinal, se máquinas imortais
e inteligentes podem existir, qual é a vantagem de preservar a espécie
humana? A criação pode vir a dominar o criador, suplantando
a necessidade de sua existência, numa repetição do tema
já abordado em "Frankenstein", escrito no início do século
19. A crise entre criador e criatura surge quando o "monstro" pede ao seu
criador por uma companheira. Apavorado com a possibilidade de criar uma raça
de monstros que possa suplantar a raça humana, o dr. Frankenstein
nega-se a ajudar sua criatura. Como o cientista no filme de Spielberg, o
pobre doutor esqueceu que a solidão é a maior punição
da imortalidade.
Estamos ainda longe de criar máquinas capazes de pensar. O cérebro
humano não funciona como um computador comum, com uma central única
de processamento de dados. A origem do que chamamos de mente, ou de consciência,
permanece ainda um mistério. Mas nossa ignorância atual não
é uma garantia para o futuro: possivelmente, o desenvolvimento das
ciências cognitivas nas próximas décadas, acoplado ao
desenvolvimento da capacidade computacional dos microprocessadores, irá
criar uma nova geração de máquinas que se aproximarão
cada vez mais dos robôs sensíveis de Spielberg.
Mesmo que o filme deixe várias questões em aberto, ele nos
convida a uma reflexão sobre o que significa criarmos cópias
imortais de nós mesmos. Talvez seja uma boa idéia criarmos
máquinas que envelheçam e morram. Caso contrário, nossas
criações irão se tornar divinas, imortais e perfeitas.
E seremos nós as entidades supérfluas.
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Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth
College, em Hanover (Estados Unidos), e autor do livro "A Dança do
Universo"