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    INTELIGÊNCIA  ARTIFICIAL

Novo filme de Steven Spielberg, que estréia nesta semana no Brasil, põe em discussão o atual estágio da inteligência artificial

MENTES QUE BRILHAM
Divulgação
 Cena do filme "AI - Inteligência Artificial"


ADRIANO SCHWARTZ
enviado especial a Massachusetts

Um robô que possui expressões faciais e demonstra alegria, tristeza, irritação; um ambiente inteligente, no qual você fala ou, eventualmente, desenha nas paredes para que as coisas aconteçam; um dinossauro que anda. Esses são alguns dos projetos desenvolvidos no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA), provavelmente o local do planeta que concentra as pesquisas mais avançadas sobre o assunto.
Por isso, o AI Lab, visitado pelo Mais! em julho, é o lugar ideal para avaliar a relação entre o atual estágio da área e a "realidade" fictícia de "AI - Inteligência Artificial", o novo filme de Steven Spielberg, que estréia no Brasil nesta semana.
"AI" é um filme estranho, no qual se mesclam nem sempre de modo tranquilo o cerebralismo de Stanley Kubrick e a forte carga emocional de todas as obras de Spielberg. Apesar de o resultado dessa simbiose acarretar problemas, é difícil não admitir que a "contaminação" do diretor de "Tubarão" pelo projeto de Kubrick, morto em 1999, o tenha levado a fazer sua melhor obra em muitos anos.
O filme é dividido em três partes bem definidas. Na primeira, é introduzido o novo projeto do professor Hobby (William Hurt), um robô que consegue desenvolver sentimentos, e é apresentado o casal escolhido para abrigar o menino, Monica e Henry Swinton (Frances O'Connor e Sam Robards). O protótipo, David (Haley Joel Osment), vai morar com eles e tudo corre bem até que o filho verdadeiro do casal se recupera surpreendentemente de uma doença que o deixara em coma por anos e volta para casa. David é, então (segunda parte), abandonado pela mãe e começa, com o auxílio do robô-gigolô Joe (Jude Law) e do superbrinquedo Teddy (um fabuloso urso de pelúcia), a sua saga para reencontrá-la. Para não antecipar o final da história, pode-se dizer apenas que a terceira parte trata, em um futuro distante, da conclusão dessa busca.
Como em boa parte do que se produziu em ficção científica sobre robôs nas últimas décadas (do conto "O Homem Bicentenário", de Isaac Asimov, ao Data, da série "Jornada nas Estrelas -A Nova Geração"), em "AI" a existência de seres mecânicos que cumprem diversas funções entre os homens já é cotidiana. No horizonte ficcional, a meta máxima é a transformação desses seres em entes conscientes com sentimentos.



UBÍQUO COMO O AR
Dos projetos mencionados, por exemplo, aquele que mais brevemente deve render benefícios concretos é o da sala inteligente, na verdade apenas uma parte do Projeto Oxigênio e de outros trabalhos semelhantes no MIT. Eles têm como lema "permitir que as pessoas façam mais fazendo menos" e como objetivo "trazer a todos computação e comunicação de forma tão abundante e tão ubíqua quanto o ar".
Tais trabalhos buscam corrigir, segundo o professor do MIT Randall Davis, ex-presidente da Associação Americana para Inteligência Artificial, um "acidente histórico" que torna os computadores muito difíceis de usar. Esse acidente aconteceu nos anos 40, quando computadores começaram a ser desenvolvidos. "Alguém teve a brilhante idéia de ligar uma máquina de escrever a um computador. Desde então, temos datilografado. Isso é bobo. Não datilografamos para falar uns com os outros, por que temos que datilografar para nos comunicar com um computador? Em 50 anos, o que fizemos? Houve o "gigantesco" salto para o mouse. Agora temos o teclado e o mouse."
De acordo com ele, o ser humano tem, por muito tempo, organizado a vida ao redor de computadores, porque eram aparelhos grandes, caros e raros. Tal situação não se alterou, apesar de eles não serem mais grandes, caros e raros. "Então por que não ficamos nós confortáveis, ao invés de fazê-los confortáveis?", pergunta Davis.
Um exemplo de mecanismo usado no Projeto Oxigênio é o E21, que engloba uma série de aparelhos (microfones, câmeras) inseridos no ambiente e com os quais a pessoa interage naturalmente, sem nenhum foco de atenção específico. O E21 pode redirecionar uma ligação telefônica "conversando" com o interlocutor, marcar compromissos, fazer reservas ou mesmo avisar alguém da hipotética queda de um parente em seu apartamento.




ROBÔS QUE RIEM, CHORAM, ANDAM
Outra linha de projetos no MIT lida com robôs humanóides. O mais famoso deles é Cog, projeto de Rodney Brooks, o diretor do AI Lab, que tem como principal objetivo ser o mais próximo possível de um ser humano, simulando movimentos e sentidos. Já o robô Kismet busca criar uma interação expressiva com o interlocutor, como se fosse um bebê de alguns meses reagindo aos estímulos visuais e sonoros à sua frente. As respostas, que incluem movimentação corporal e facial, além de emissões sonoras, indicam emoções básicas, como alegria, tristeza, irritação, interesse etc.
Uma das atuais estrelas do laboratório, o dinossauro Troody, por sua vez, não tem, na verdade, nada de inteligência artificial, como salienta o engenheiro Peter Dilworth, o seu criador. Recém-completado -acaba de ser adquirido pelo Museu da Ciência de Boston-, teve como principal propósito ser um robô eficiente com duas pernas (há menos de dez robôs bípedes no mundo) e locomoção autônoma.
Por que um dinossauro? Segundo Dilworth, por duas razões: "Sempre gostei de dinossauros e achei que seria uma boa oportunidade para que as pessoas pudessem ter uma idéia do que seria um criatura assim andando por aí; o outro motivo é comercial, há atualmente muito interesse em dinossauros, exibições por todo o planeta, e o robô só precisa andar...".
Como se percebe, se na ficção robôs humanóides são corriqueiros, na realidade o caminho para produzir um robô dos mais simples parece árduo e longo, ainda mais dotado de consciência como no filme "AI" -quão longo seja esse percurso é um motivo de grande controvérsia entre os especialistas.


A CHEGADA DOS ROBÔS
Rodney Brooks

"O personagem David e o filme estão localizados em um futuro indeterminado. Nós fazemos muitas coisas no AI Lab, entre elas construir robôs humanóides que têm emoções e podem interagir com as pessoas, estabelecendo contato visual, sorrindo, mexendo a cabeça, tendo certo controle da conversa.
Nesse sentido, estamos construindo alguns protótipos preliminares de David aqui. Quanto tempos vamos levar para chegar ao nível dele é uma outra questão. Eu ficaria muito surpreso se nós não chegássemos lá em nenhum momento.
Em 20 ou 30 anos, teremos suficiente capacidade tecnológica para construir um robô com a mesma quantidade de computação do cérebro humano. Só não sei se nós vamos conseguir decifrar os algoritmos necessários nesse período de tempo. Isso pode levar 20, 30, até 200 anos. Não sei.
A inteligência artificial tem sido temida por muito tempo, mas temos tecnologia relacionada a ela em muitos campos da nossa vida hoje em dia sem percebermos. Atualmente, ela tem cumprido pequenas tarefas: o sistema que define para qual portão vai um avião no aeroporto Heathrow, o oponente de alguém jogando videogame, o sistema que examina as suas compras com cartão de crédito e manda um alerta quando parece que os seus hábitos mudaram drasticamente, esses são usos da inteligência artificial.
A maior parte dos robôs que iremos eventualmente construir não terá vontade própria. Nós poderemos, no entanto, construir robôs com esse alto nível de interatividade, e não vejo por que acidentalmente faríamos algum robô maligno. Iremos passo a passo avaliando o que fizemos e, quando for necessário, haverá regulamentações governamentais."
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Trechos do depoimento de Rodney Brooks, diretor do Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, para a produção do filme "AI".


A DÚVIDA DA CONSCIÊNCIA
Marvin Minsky, um dos fundadores do AI Lab, do MIT, afirmou recentemente em uma entrevista ao "ZDNet" que "a consciência não existe". Ela significa apenas, segundo ele, se lembrar do que você fez recentemente, o que tornaria tola a discussão sobre a eventual consciência de computadores. Minsky deve publicar até 2002 "The Emotion Machine" (A Máquina de Emoções), uma espécie de continuação de seu influente "A Sociedade da Mente".
Para o filósofo Daniel Dennett, da Universidade Tufts (Massachusetts), os impedimentos para a construção de um robô consciente são principalmente financeiros.
"Eu duvido que um robô consciente seja construído neste século, mas apenas por entediantes razões econômicas. Fazer um robô realmente consciente é possível, mas terrivelmente caro, e o projeto não é claramente motivado por nenhum objetivo científico ou técnico. Suponho que continuaremos a fazer sistemas que têm muitos dos atributos da consciência e, por meio disso, aprenderemos o que precisamos saber", diz Dennett, que também atua no projeto Cog.
Já para o professor do MIT Randall Davis, a possibilidade de reproduzir os atributos da mente humana artificialmente ainda é muito remota: "O cérebro é muito complicado e, exceto por alguns pontos muito especializados, nós ainda não entendemos direito como ele funciona. Há poucas áreas em que talvez vejamos progressos no nosso período de vida, nos próximos 40 ou 50 anos, ouvidos artificiais... os sensores, de modo geral".
Há, contudo, quem acredite que o feito está por acontecer, como o premiado inventor Raymond Kurzweil, autor de vários textos na área, entre eles "The Singularity Is Near" (A Singularidade Está Próxima), que deve ser lançado no ano que vem. Para ele, as máquinas afirmarão serem conscientes em 30 anos, mas o cenário é ainda mais complexo.
De acordo com Kurzweil, o avanço tecnológico da humanidade está, atualmente, dobrando a cada dez anos. Isso significa que o progresso científico no século 21 seria, numa visão linear, equivalente ao de dezenas de séculos prévios. Entretanto, afirma o autor, a taxa de crescimento é exponencial, o que implica que ele "parecerá explodir em direção ao infinito" na primeira metade do século 21 (em contraste, "o século 20 teve apenas 25 anos de crescimento segundo a atual taxa de progresso").
Ocorre que, para Kurzweil, o ser humano será, em algum momento das próximas décadas, incapaz de acompanhar tal evolução -pelo menos o que chama de "o ser humano não aprimorado" pela incorporação da inteligência artificial. Isso porque, ele pergunta, "o que mil cientistas, cada um mil vezes mais inteligente do que os atuais e cada um trabalhando mil vezes mais rápido do que os humanos de hoje em dia (porque o processamento de informação nos cérebros primordialmente não-biológicos deles é mais rápido) seriam capazes de fazer?".
No campo oposto, entre os grandes adversários da idéia de inteligência artificial, encontram-se há muitos anos o matemático Roger Penrose e o filósofo John Searle.
O primeiro, companheiro de pesquisa do físico Stephen Hawking, é autor de um livro que se tornou referência obrigatória na área, "A Roupa Nova do Rei", no qual busca destruir qualquer tentativa de comparar o funcionamento do cérebro humano com o de um computador.
Searle, por sua vez, criou um dos mais citados e combatidos argumentos filosóficos das últimas décadas -o quarto chinês- para atacar a disciplina. Em linhas gerais, ele consiste em supor que uma pessoa -que não entenda chinês- esteja fechada em um quarto com duas aberturas. Através da primeira, alguém passa a ela uma frase em chinês. Usando um livro de regras, a pessoa cria uma "resposta" possível à tal frase e a insere na outra abertura. Hipoteticamente, a frase poderia até ser "você fala chinês", e a resposta, após a consulta ao livro de regras, "sim".
A comparação com um computador, segundo Searle, é evidente. Ele recebe uma informação, a processa e a devolve, sem em nenhum momento "entender" nada do que está acontecendo. Mudar o programa, aprimorá-lo, significaria apenas alterar o livro de regras: o entendimento continuaria absolutamente nulo, e a inteligência artificial, impossível. Falta, na concepção do filósofo, um elemento essencial à consciência, a intencionalidade intrínseca.
As respostas aos ataques de Penrose e Searle vieram de todos os lados e com as mais variadas intensidades. Steven Pinker, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva do MIT, por exemplo, escreveu que os argumentos de ambos "têm mais uma coisa em comum além do alvo. Ao contrário da teoria que criticam, eles são tão desvinculados da descoberta e explicação na prática científica que têm sido empiricamente estéreis, sem contribuir com nenhum insight e inspirar descobertas sobre o modo como a mente funciona".



A ORIGEM DAS ESPÉCIES ARTIFICIAIS
A implicação mais fascinante do desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial nos próximos anos é a hipótese, defendida por alguns autores, de que ela vá alterar profundamente a própria idéia de evolução da humanidade.
Para Kurzweil, haverá um aumento na capacidade de inteligência, pois o cérebro humano não terá mais um limite preestabelecido pela natureza: "Quando os cientistas se desenvolverem para ser um milhão de vezes mais inteligentes, então 60 minutos resultarão em um século de progresso (nos termos atuais)". Isso é, para ele, a Singularidade, "mudança tecnológica tão rápida e profunda que representará uma ruptura na fábrica da história humana".
Daniel Dennett não vê as perspectivas das experiências de implantes cerebrais com muito otimismo. Para ele, "é possível incorporar aparelhos digitais no cérebro, mas isso tende a ficar muito caro, a não ser aparelhos que meu cérebro já "incorpora". Neste momento, meu cérebro está em direta interação com um computador -um aparelho digital. Esses caminhos podem ser melhorados e encurtados, mas não está claro se instalar algo no meu cérebro ajudaria muito".
A idéia de incorporar tecnologia ao corpo para modificá-lo já vem sendo testada. Kevin Warwick, professor de cibernética da Universidade de Reading, na Inglaterra, implantou em 1998 um chip em seu braço que era capaz de monitorá-lo enquanto ele se movia pelos corredores de seu departamento.
A segunda fase do projeto estaria em andamento neste semestre. Warwick pretende, desta vez, implantar um novo chip e verificar como ele transmitiria dados de seu sistema nervoso para um computador e vice-versa. No anúncio do plano, aparecem as seguintes perguntas: "Até que ponto o cérebro pode se adaptar e processar informações estranhas vindas através dos nervos? Ele aceitará tais informações? Ele tentará interrompê-las?". A resposta de Warwick a elas é simples: "Não tenho a menor idéia".
Por via das dúvidas, já existe quem esteja se antecipando aos fatos e se preparando para um hipotético e admirável mundo novo a chegar, repleto de Davids e de gigolôs Joe. O advogado americano Frank Wells Sudia acaba de publicar um artigo (www.sudialab.com) no qual busca estabelecer uma jurisprudência para os "artilects" ("artificial intellects"), pois, como afirma, o advento desses seres, "com conhecimento e capacidade de raciocínio que ultrapassarão o humano, criará novas questões legais".
Ele continua: "Novas regras e padrões devem ser necessários para governar o uso e comportamento deles -em particular, o temor de que venham a se transformar em uma super-raça que eclipsará a humanidade (...) e tentará marginalizar ou eliminar pessoas".
Não deixa de ser curioso que já (ou talvez só) tenham se passado mais de 50 anos desde que o lógico e matemático inglês Alan Turing (1912-1954) publicou "Computing Machinery and Intelligence" (Maquinaria de Computação e Inteligência), um artigo fundador na teoria da inteligência artificial. Na primeira linha do texto, surge a questão crucial, simples e ainda válida: "Proponho-me a considerar a seguinte pergunta: "As máquinas podem pensar'?".

Dois bons lugares para quem desejar informações sobre inteligência artificial na web são o site de Raymond Kurzweill (www.kurzweilai.net) e o catálogo de artigos on line do filósofo David Chalmers (www.u.arizona.edu/~chalmers/online.html)




O QUE LER

Como a Mente Funciona de Steven Pinker (Companhia das Letras)
Filosofia e Ciência Cognitiva de James H. Fetzer (Edusc)
Gödel, Escher e Bach de Douglas R. Hofstadter (editora UnB/Imprensa Oficial)
Mente, Cérebro e Cognição de João de Fernandes Teixeira (Vozes)
Mente, Linguagem e Sociedade de John R. Searle (Rocco)
A Mente Nova do Rei de Roger Penrose (Campus)
O Mistério da Consciência de John R. Searle (Paz e Terra)
A Nova Ciência da Mente de Howard Gardner (Edusp)
A Redescoberta da Mente de John R. Searle (Martins Fontes)
Tipos de Mentes de Daniel Dennett (Rocco)
Visões do Futuro de Michio Kaku (Rocco)
The Age of Spiritual Machines de Raymond Kurzweil (Penguin)
The Computational Brain de Churchland e Sejnowski (MIT Press)
Consciousness Explained de Daniel Dennett (Little, Brown)
Foundations of Cognitive Science de M. Posner (MIT Press)
Mind Design de John Haugeland (MIT Press)
Robo Sapiens de Peter Menzel e Faith D'Aluisio (MIT Press)
"Robot - Mere Machine to Transcendent Mind de Hans Moravec (Oxford University Press)
The Society of the Mind de Marvin Minsky (Simon & Schuster)


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Onde encomendar
Livros em inglês podem ser encomendados, em SP, à livraria Cultura (tel. 0/xx/ 11/ 285-4033) e, no Rio, à livraria Marcabru (tel. 0/ xx/21/ 294-5994).




O inventor do termo esclarece as principais dúvidas sobre o conceito

QUESTIONÁRIO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Peter Menzel/"Robo Sapiens" (MIT Press)
 Marvin Minsky, um dos fundadores do Laboratório de Inteligência Artificial do MIT


por John McCarthy

O que é inteligência artificial?
É a ciência e a engenharia aplicadas à elaboração de máquinas inteligentes, em especial programas de computador inteligentes. Ela é relacionada ao trabalho semelhante de utilizar computadores para compreender a inteligência humana, mas a inteligência artificial não precisa se restringir a métodos biologicamente observáveis.
Sim, mas o que é inteligência?
Inteligência é a parte computacional da habilidade de atingir metas no mundo. Inteligências de graus e tipos variados ocorrem em pessoas, em vários animais e em algumas máquinas. Será que não existe uma definição sólida de inteligência que não precise ser relacionada à inteligência humana? Ainda não. O problema é que nós ainda não podemos caracterizar de forma geral que tipos de procedimento computacional nós queremos chamar de inteligentes. Entendemos alguns mecanismos da inteligência, e não outros.
É a inteligência uma coisa única, de forma que alguém possa perguntar se uma máquina é ou não é inteligente?
Não. A inteligência envolve mecanismos, e a pesquisa em inteligência artificial descobriu como fazer os computadores desempenharem alguns deles, não outros. Se executar um trabalho requer apenas mecanismos que são bem compreendidos hoje, computadores podem ter desempenhos impressionantes em tal trabalho. Tais programas devem ser considerados "algo inteligentes".
A inteligência artificial não serve para simular inteligência humana?
Às vezes, mas não sempre, nem na maioria das vezes. Por um lado, podemos aprender algo sobre como fazer máquinas solucionarem problemas ao observarmos outras pessoas ou ao observarmos os nossos próprios métodos de resolução de problemas. Por outro lado, a maior parte do trabalho em inteligência artificial envolve o estudo de problemas que o mundo apresenta à inteligência em vez de estudar pessoas ou animais. Pesquisadores em inteligência artificial são livres para usar métodos que não são seguidos por pessoas ou que envolvam muito mais cálculos do que uma pessoa pode fazer.
E quanto a comparações entre inteligência humana e inteligência de computador?
Arthur R. Jensen, um pesquisador de ponta em inteligência humana, sugere "como hipótese heurística" que todos os seres humanos normais têm os mesmos mecanismos intelectuais e que as diferenças em inteligência são relacionadas a "condições bioquímicas e fisiológicas quantitativas". Eu as entendo como velocidade, memória a curto prazo e habilidade de formar memórias a longo prazo precisas e recuperáveis. Estando Jensen certo ou não com relação à inteligência humana, a situação hoje em inteligência artificial é oposta.
Programas de computador têm bastante velocidade e memória, mas suas habilidades correspondem aos mecanismos intelectuais que os programadores compreendem bem o suficiente para colocar nos programas. Algumas habilidades que crianças não desenvolvem até que sejam adolescentes podem estar nesses programas, enquanto algumas habilidades de crianças de dois anos de idade não estão. O problema se agrava pelo fato de as ciências cognitivas ainda não terem tido sucesso em determinar exatamente quais são as habilidades humanas. Muito provavelmente a organização dos mecanismos intelectuais para a inteligência artificial pode ser vantajosamente diferente daquela em pessoas.
Sempre que pessoas desempenham alguma tarefa melhor que computadores ou computadores fazem uso de cálculo excessivo para desempenhá-la tão bem quanto pessoas fica demonstrado que aos programadores falta a compreensão dos mecanismos intelectuais requeridos para desempenhá-la eficientemente.
Quando começou a pesquisa em inteligência artificial?
Após a Segunda Guerra Mundial, um número de pessoas começou a trabalhar independentemente em máquinas inteligentes. O matemático inglês Alan Turing pode ter sido o primeiro. Ele deu uma palestra a respeito em 1947. Ele também pode ter sido o primeiro a decidir que inteligência artificial seria mais bem pesquisada na programação de computadores do que na construção de máquinas. No final da década de 50, havia muitos pesquisadores em inteligência artificial, e a maioria deles baseava o trabalho em programar computadores.
A inteligência artificial almeja colocar a mente humana dentro do computador?
Alguns pesquisadores dizem ter esse objetivo, mas talvez estejam usando a frase metaforicamente. A mente humana possui diversas peculiaridades, e não tenho certeza de que alguém pense seriamente em imitar todas elas.
O que é o teste de Turing?
O artigo de Turing de 1950, "Computing Machinery and Intelligence", discutiu as condições para considerar uma máquina inteligente. Ele argumentou que, se a máquina tivesse êxito em fingir ser humana para um observador perspicaz, então certamente deveria ser considerada inteligente. Esse teste satisfaz à maioria das pessoas, mas não a todos os filósofos. O observador poderia interagir com a máquina e com outro ser humano via teletipo (para evitar a necessidade de a máquina imitar a aparência ou a voz de uma pessoa), a pessoa tentaria persuadir o observador de que a máquina é humana, e a máquina tentaria enganar o observador.
A inteligência artificial almeja obter inteligência do mesmo nível que a humana?
Sim. O esforço último é fazer programas de computador que possam solucionar problemas e atingir metas no mundo tão bem quanto seres humanos. Entretanto muitas pessoas envolvidas em áreas particulares de pesquisa são muito menos ambiciosas.
A que distância a inteligência artificial está de atingir inteligência de mesmo nível que a humana? Quando isso acontecerá?
Algumas pessoas acreditam que inteligência como a humana pode ser atingida ao ser escrito um grande número de programas do tipo que estão sendo escritos hoje e ao montar uma vasta base de fatos do conhecimento nas linguagens hoje utilizadas para expressar conhecimento.
Entretanto a maioria dos pesquisadores em inteligência artificial crê na necessidade de novas idéias fundamentais, portanto não é possível prever quando esse nível de inteligência será atingido.
Os computadores são o tipo ideal de máquina a ser tornada inteligente?
Computadores podem ser programados de forma a simular qualquer tipo de máquina.
Muitos pesquisadores inventaram máquinas que não eram computadores, esperando que elas fossem inteligentes em maneiras diferentes daquelas que os programas de computador podem ser. Todavia eles normalmente simularam suas máquinas inventadas em um computador e duvidaram de que valesse a pena construir a nova máquina. Por terem sido gastos bilhões de dólares em fazer os computadores cada vez mais rápidos, outro tipo de máquina teria de ser muito rápida para ter um desempenho melhor do que o programa de computador simulando essa máquina.
Os computadores são rápidos o suficiente para serem inteligentes?
Algumas pessoas acham que são necessários computadores muito mais rápidos, além de novas idéias. Minha opinião é a de que os computadores de 30 anos atrás já teriam sido rápidos o suficiente se nós tivéssemos sabido como programá-los. É claro que, bem à parte das ambições dos pesquisadores em inteligência artificial, os computadores serão cada vez mais velozes.
E quanto a máquinas paralelas?
Máquinas com muitos processadores são muito mais velozes do que podem ser as com um único processador. Paralelismo em si não apresenta vantagens, e máquinas paralelas são pouco práticas para programar. Quando a velocidade extrema é necessária, essa falta de praticidade deve ser enfrentada.
E quanto a fazer uma "máquina criança" que pudesse se desenvolver lendo e aprendendo com a experiência?
Essa idéia foi proposta muitas vezes desde os anos 40. Eventualmente será posta em prática. Entretanto programas de inteligência artificial ainda não atingiram o estágio de serem capazes de aprender muito do que uma criança aprende por experiência física. Tampouco os programas atuais compreendem linguagem bem o suficiente para aprender algo por meio de leitura.
Poderia um sistema de inteligência artificial obter um nível cada vez mais alto de inteligência, retroalimentando-se sem auxílio, apenas por pensar sobre inteligência artificial?
Penso que sim, mas ainda não estamos em um nível de inteligência artificial em que esse processo possa começar.
E quanto ao xadrez?
Alexander Kronrod, um pesquisador em inteligência artificial russo, disse: "Xadrez é a drosófila da inteligência artificial". Ele fazia analogia com o uso que os geneticistas fazem dessa mosca de frutas para estudar herança genética. Jogar xadrez requer certos mecanismos intelectuais, e não outros. Programas de xadrez agora jogam no mesmo nível de grandes mestres, mas o fazem com mecanismos intelectuais limitados se comparados a um enxadrista humano, substituindo compreensão por grande quantidade de cálculo. Uma vez que tenhamos um melhor entendimento desses mecanismos, poderemos criar programas de xadrez de nível humano que façam muito menos cálculos que os programas atuais.
Infelizmente os aspectos competitivos e comerciais de fazer computadores que joguem xadrez foram priorizados, em vez do uso do xadrez como um domínio científico. É como se os geneticistas após 1910 tivessem organizado corridas de drosófilas e concentrado seus esforços na criação e aprimoramento de moscas para vencer essas corridas.
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John McCarthy é professor emérito de ciência da computação da Universidade Stanford (EUA). Cunhou o termo "inteligência artificial" em 1956. O texto acima é uma versão reduzida do questionário. A versão completa pode ser obtida em www-formal.stanford.edu/jmc/whatisai/whatisai.html

Tradução de Victor Aiello Tsu.

Inteligência artificial segundo Spielberg
Marcelo Gleiser
especial para a Folha

Uma das questões teológicas mais conhecidas é: "Se Deus é perfeito, por que sentiu a necessidade de criar Adão e Eva?" A resposta, ou ao menos uma delas, é que Deus criou o homem e a mulher para que eles pudessem amá-lo. Nesse caso, Deus revela uma vaidade um tanto imperfeita e embaraçosa, que dá pano para várias mangas eclesiásticas. Essa pergunta, sem o último comentário, aparece no início do novo filme de Steven Spielberg, "Inteligência Artificial". O ator William Hurt representa o cientista genial que desenvolve um método para codificar emoções em redes neurais implantadas em robôs que são externamente indistinguíveis de seres humanos. Em outras palavras, o filme trata da possibilidade de criarmos máquinas que, para todos os propósitos, se comportam como seres humanos e se assemelham a eles, nossos próprios Adão e Eva.
Se, por um lado, é difícil entender a motivação divina em criar os homens, no nosso caso a motivação é trivial: nós somos seres vaidosos, com uma profunda necessidade de amar e ser amados. E, ainda mais importante, nós somos mortais, e nossa mortalidade é causa de grande sofrimento. De certa forma, a morte é o triunfo final da Natureza sobre a criatividade humana -a menos que, claro, a ciência possa driblar a morte.
Esse é, essencialmente, o tema do filme de Spielberg. As máquinas que amam e sonham criadas pelo cientista são cópias idênticas de seu filho já falecido. Se não nos é possível perpetuar a vida, podemos ao menos imitá-la. O problema é que o cientista se esqueceu de um detalhe fundamental: as máquinas que amam e sonham são essencialmente imortais, condenadas a sofrer a perda dos entes amados para sempre. Na ânsia de amenizar a dor de sua perda, o cientista egoísta condena a sua criação a sofrer da mesma dor. E sem o alívio que vem com a morte.
O filme nos alerta para vários perigos futuros, todos consequência do uso cego e desenfreado da ciência. Grande parte do mundo, em particular as regiões costeiras, jaz submersa pelo aumento do nível do mar provocado pelo efeito estufa; a recriação de Nova York parcialmente sob as águas é tecnicamente espetacular. A narrativa do filme é estruturada como um conto de fadas, traçando as aventuras de um robô-criança capaz de amar e sonhar, cujo maior desejo é, como Pinóquio, tornar-se um menino de verdade.
Conforme fica claro no filme, se os humanos são capazes de criar máquinas que sentem e amam, não é óbvio que eles serão também capazes de amá-las. As máquinas não são vistas como animais de estimação, mas como uma ameaça à hegemonia dos humanos na Terra: afinal, se máquinas imortais e inteligentes podem existir, qual é a vantagem de preservar a espécie humana? A criação pode vir a dominar o criador, suplantando a necessidade de sua existência, numa repetição do tema já abordado em "Frankenstein", escrito no início do século 19. A crise entre criador e criatura surge quando o "monstro" pede ao seu criador por uma companheira. Apavorado com a possibilidade de criar uma raça de monstros que possa suplantar a raça humana, o dr. Frankenstein nega-se a ajudar sua criatura. Como o cientista no filme de Spielberg, o pobre doutor esqueceu que a solidão é a maior punição da imortalidade.
Estamos ainda longe de criar máquinas capazes de pensar. O cérebro humano não funciona como um computador comum, com uma central única de processamento de dados. A origem do que chamamos de mente, ou de consciência, permanece ainda um mistério. Mas nossa ignorância atual não é uma garantia para o futuro: possivelmente, o desenvolvimento das ciências cognitivas nas próximas décadas, acoplado ao desenvolvimento da capacidade computacional dos microprocessadores, irá criar uma nova geração de máquinas que se aproximarão cada vez mais dos robôs sensíveis de Spielberg.
Mesmo que o filme deixe várias questões em aberto, ele nos convida a uma reflexão sobre o que significa criarmos cópias imortais de nós mesmos. Talvez seja uma boa idéia criarmos máquinas que envelheçam e morram. Caso contrário, nossas criações irão se tornar divinas, imortais e perfeitas. E seremos nós as entidades supérfluas.
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Marcelo Gleiser é professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (Estados Unidos), e autor do livro "A Dança do Universo"


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